terça-feira, 14 de junho de 2011

The Philosophic Dialectic of the Concepts of Relativity


A Dialética Filosófica do Conceito de Relatividade
Tradução Inédita

Gaston Bachelard, "The Philosophic Dialectic of the Concepts of Relativity" (cap. 22) In P.A. Schilpp (ed.). Albert Einstein: Scientist-Philosopher. Library of Living Philosophers, Inc. 2. ed: New York, 1949-1951. Manuscrito traduzido do francês por Forrest W. Williams

Resumo
Uma tradução que pretende suscitar no domínio da Psicologia uma discussão filosófica entre o racionalismo e o realismo, ao se pensar numa dialética que se funda na ciência experimental da relatividade e se torna uma posição não arbitrária para os pressupostos de uma teoria crítica e para a filosofia da ciência contemporânea. Palavras-Chaves: racionalismo, realismo, dialética, relatividade, teoria crítica.

Abstract
This translation aims to rouse in Psychology’ field a discussion between the rationalism and realism considering the dialectic that founds the experimental science of relativity which becomes a position non arbitrary to the critical theory’ presuppositions and to contemporanean philosophy of science. Key-words: rationalism, realism, dialectic, relativity, critical theory.

I

Filósofos têm mudado o grande drama cósmico do pensamento copernicano do domínio da realidade para o domínio da metáfora. Kant descreveu sua filosofia crítica como a revolução copernicana na metafísica. Seguindo a tese kantiana, as duas filosofias fundamentais, racionalismo e empirismo, mudou lugares, e o mundo girou sobre a mente. Como um resultado dessa radical modificação, o conhecimento sobre a mente e o conhecimento sobre o mundo adquiriram a aparência de uma existência relativa de um em relação ao outro. Mas, esse tipo de relatividade permaneceu meramente simbólica. Nada tinha mudado nos detalhes ou os princípios de coerência do conhecimento. Empirismo e racionalismo permaneceram face-to-face e incapazes de atingir ou uma verdade filosófica ou um mútuo enriquecimento. As virtudes filosóficas da revolução einsteiniana poderiam ser bastante diferentemente efetivas, como comparadas à metáfora filosófica da revolução copernicana, se apenas o filósofo se interessasse em procurar toda a instrução contida na ciência da relatividade. Uma revolução sistemática dos conceitos básicos começa com a ciência einsteiniana. Na profundidade dos seus conceitos, um relativismo do racional e do empírico é estabelecido. Ciência, então, passa pelo que Nietzsche chamou de "uma agitação de conceitos", como se a Terra, o universo, coisas, possuíssem uma estrutura diferente a partir do fato de que suas explicações repousam sobre novas fundações. Toda organização racional é sacudida quando os conceitos fundamentais sofrem uma transformação dialética. Além disso, essa dialética não é argumentada por uma lógica automática, como é a dialética do filósofo muitas vezes. Na relatividade, os termos da dialética sofrem uma sólida coesão ao ponto de se pressentir uma síntese filosófica do racionalismo matemático e do empirismo "tecnológico". Isso, no mínimo, é o que gostaríamos de mostrar no presente artigo. Primeiro, apresentaremos nossa visão sobre o shaking de alguns conceitos isolados; então, nos empenharemos a mostrar o valor da síntese filosófica que é sugerida pela ciência einsteiniana.

II

Como sabemos, e como tem sido repetido milhares de vezes, relatividade nasceu de um choque epistemológico; ela nasceu do fracasso do experimento de Michelson. Aquele experimento deveria contradizer a predição teorética que, em si mesma, não é uma ocorrência singular. Mas, é necessário compreender como e por que um resultado negativo foi, this time, a ocasião para uma imensa construção positiva. Aqueles que vivem no pensamento do realismo científico sem dúvida não precisam desses comentários. Eles são, todavia, polemicamente indispensáveis para acessar a utilidade filosófica da relatividade. A essa noção da qualidade negativa do experimento, não deve ser permitido subsistir. Em um experimento bem desempenhado, tudo é positivo. E Albert Einstein entendeu esse fato quando ele ponderou além do experimento de Michelson. Esse experimento pseudo-negativo não abriu sobre os mistérios das coisas, os inalcançáveis mistérios das coisas. Seu "fracasso" não foi uma prova da inaptidão do racionalismo. O experimento de Michelson procedeu a partir de uma questão inteligente, a questão que tinha que ser perguntada. A ciência contemporânea estaria suspensa no ar, se o experimento de Michelson não tivesse sido concebido, então, atualizado, então meticulosamente atualizado na consciência total da sensibilidade da técnica; então, variado, então repetido nas bases dos vales e dos picos das montanhas, e sempre verificado. Que capacidade para a dúvida, para uma dúvida meticulosa e profunda, para uma dúvida inteligente, foi contida nessa vontade para testar e medir de novo e mais uma vez? Estamos certos que Michelson morreu com a convicção que o experimento tinha sido bem desempenhado, perfeitamente realizado, com a convicção de que as bases negativas do experimento tinham sido atingidas? Portanto, em vez de uma dúvida universal, uma dúvida intuitiva, uma dúvida cartesiana, a ciência tecnológica produz uma dúvida precisa, uma dúvida discursiva, uma dúvida implementada. Foi como consequência dessa dúvida explícita que o dogmatismo mecânico foi destruído pela relatividade. Para parafrasear Kant, poderíamos dizer que o experimento de Michelson despertou a mecânica clássica a partir do seu dogmatismo adormecido. O aspecto negativo do experimento de Michelson não deteve Einstein. Para ele, o fracasso experimental de uma técnica, portanto, cientificamente perseguida, sugeriu a necessidade para uma nova informação teorética. Ela se tornou indispensável para a esperança de uma "revolução copernicana", na qual toda filosofia da relatividade e da razão devem começar uma nova dialética. Considerando que essa dialética pode possuir seu total valor instrutivo para o filósofo, é necessário estar consciente de uma radical e ampla designação filosófica. Não é altamente instrutivo dizer, com Meyerson, que Einstein é um realista. Sem dúvida, Einstein submete à experiência, submete à realidade. Mas, nós não devemos interrogar: qual experiência? Qual realidade? Aquele décimo infinitesimal sobre os quais o experimento de Michelson se virou , ou aquela realidade sólida do número inteiro, do sólido, ordinário, comum, verificação grosseira? Parece que o filósofo que agradece as lições da relatividade deve prever (imaginar: envisage) uma nova realidade. Essa nova realidade o orienta a considerar a realidade diferentemente. Onde, então, deve o filósofo da ciência encontrar suas convicções iniciais? Deve dar precedente às lições que são encontradas no começo da experiência ou no final? Construindo sobre as primeiras estruturas ou nas finais? Veremos que a última é a correta, l’esprit de finesse, o qual revela as fundações do l’esprit géometrique.

 
III

Quais, então, são os conceitos que devemos "sacudir"? Quais conceitos experimentam ao nível racional, na magnífica luz da filosofia racional, uma transmutação nietzscheana dos valores racionais? Os conceitos são: espaço absoluto; tempo absoluto e velocidade absoluta. É pouca a exigência para "sacudir" o universo da espacialidade? Pode uma simples experiência do séc. XX aniquilar, um sartriano diria "néantiser" – dois ou três séculos de pensamento racional? Sim, um simples decimal é suficiente, como nosso poeta Henri de Regnier diria, "para fazer toda natureza cantar". Sobre o que, de fato, a noção de espaço absoluto repousa? Ela repousa sobre uma realidade absoluta ou sobre uma intuição absoluta da variedade kantiana? Não é filosoficamente estranho que o absolutismo poderia ser atribuído também a uma realidade como a uma intuição a priori? Esse duplo sucesso de um realismo puro e um intucionismo over-simple parece falso. O sucesso dessas duas partes marca um duplo fracasso. Portanto, é necessário investigar essa dupla possibilidade de interpretação filosófica a partir do ponto de vista da precisão do moderno experimento científico. Uma experiência não crítica é de forma alguma admissível. A dupla filosofia da experiência do espaço – filosofia realista e a filosofia kantiana – devem ser substituídas por uma filosofia dialética do espaço, por uma filosofia que é de uma só vez experimental e racional. Em resumo, a filosofia de uma experiência ultra-refinada e a filosofia da teoria física estão firmemente associadas na relatividade. A nova filosofia da ciência provará ser uma filosofia crítica mais sutil e mais sintética do que foi a filosofia kantiana a respeito da ciência newtoniana. A crítica relativista não se limita a uma revolução dos meios de explicação. Ela é mais profundamente revolucionária. Ela é mais genial. Portanto, estamos face-to-face com a fundamental afirmação de Einstein: a posição de um espaço absoluto como a afirmação de um tipo de materialização de imobilidade e como a residência de um sujeito incondicionado no centro de todas as relações condicionadas, é uma posição sem prova. Assim alguém deve - revolução copernicana no nível de um conceito único – formular a relatividade essencial da intuição da localização e a experiência da localização que simultaneamente destroem dois absolutos: primeiro, a intuição de um observador não tem características absolutas; segundo, a extensão de um mundo objetivo não tem características absolutas. A essencialidade discursiva do método, portanto, tem que ser sempre explicitamente considerada em relação ao real fenômeno estudado na extremidade da precisão científica. A destreza experimental extrema subjaz qualquer conhecimento do espaço. O experimento de Michelson, a uma primeira vista tão particular no caráter, formará as bases do principal alcance da generalização. Além disso, é bastante notável que o laboratório de Michelson foi, adequadamente falando, cósmico. Lá, a física artificial mais imaginável foi referida ao espaço do mundo. O decimal, o qual eles desejaram revelar pelos meios de medida da interferência, o decimal que é da ordem de três-quartos de comprimento da onda de uma vibração de luz, foi relacionado à velocidade orbital da Terra, uma velocidade da ordem de dezoito milhas por segundo. A precisão de semelhante questão que se colocou por essa técnica a respeito do espaço do mundo, essa tentativa para experienciar a imobilidade do espaço em sua significância cósmica, deveria situar o pensamento dos metafísicos que estudam o lugar do homem no mundo; se esses metafísicos dessem atenção à extensão dos processos discursivos, os quais conduzem a ciência na construção de novas intuições.

IV

As novas intuições do tempo da mesma forma demandam uma preparação mais demorada. Elas devem lutar contra a clareza cega da intuição comum, e igualmente contra a formulação da crítica kantiana. Aqui, o conceito que passa pela "agitação nietzscheana" é o da simultaneidade. A posição einsteiniana é gestante deste conceito tão evidente, tão familiar. Esta posição colide com o senso comum; é contrária à experiência comum; ela põe em questão as bases da mecânica clássica. Ela demanda, portanto, uma mutação intelectual decisiva, a qual deve reverberar entre os principais e fundamentais valores filosóficos. Mais precisamente, se a noção de simultaneidade, a qual não foi criticada por Kant, deve receber uma examinação neo-crítica, empirismo e racionalismo devem, ao mesmo tempo, serem retificados e relacionados um com outro de uma nova maneira. Formular uma dúvida a respeito do conceito de simultaneidade, em nossa opinião, é transcender a dúvida hiperbólica da filosofia cartesiana. Uma dúvida que não mais sustenta a marca de uma dúvida formal, uma dúvida universal. Ainda que permaneça dentro dos horizontes da dúvida cartesiana, está na contingência da dúvida. A revolução einsteiniana demanda uma necessidade de dúvida considerando a noção que tem sempre passado por fundamental. Concomitantemente, por em dúvida a noção racional e realista não pode permanecer provisória. Semelhante dúvida sempre levará a um decisivo efeito pedagógico. Isso permanecerá um fato cultural imprescritível. Qualquer um que, para o resto do tempo, ensine relatividade terá que pôr em dúvida o caráter absoluto da noção de simultaneidade. Essa necessidade constitui, em algum sentido, um eletro-choque para as filosofias racionalistas e para as endurecidas filosofias realistas. Considerando a renúncia dos direitos de estabelecer um espaço absoluto, qual é a posição einsteiniana a respeito da simultaneidade dos eventos os quais ocorrem em dois diferentes pontos no espaço? Einstein exige a definição de um experimento positivo, um experimento preciso expressável em termos científicos bem definidos. Não se procura retratar a intuição da sensibilidade interna, se essa intuição é kantiana ou bergsoniana, formalista ou realista. Deve-se ser hábil para descrever e instituir experimentos objetivos que devem possibilitar a verificação dessa simultaneidade. Imediatamente, uma nuance metafísica aparece com o filósofo também muitas vezes negligenciado. Aqui, temos uma realidade verificada no lugar de uma realidade dada. Daí em diante, se um idealista fizer uma declaração inicial, ele será forçado a fazê-la a partir de um passo mais próximo a um racionalismo o qual é relacionado com a realidade. Ele não pode ser satisfeito com a posterior reiteração de Schopenhauer: "O mundo é minha representação"; ele deve dizer, se assumir a extensão total do pensamento científico: "O mundo é minha verificação". Mais precisamente, o mundo objetivo é um agregado de fatos verificados pela moderna ciência, o mundo produzido pelas concepções verificadas pela ciência do nosso tempo. Além disso, a verificação experimental implica a coerência do método experimental. Visto que uma ciência é formada sobre os experimentos de Michelson, este experimento deve ser compreendido na definição de simultaneidade. Para assegurar, consideramos o experimento de Michelson como ele é, não como foi por um longo pensamento to be. O experimento de Michelson, como ele é, então, deve indicar a realidade no princípio para a convenção de sinalização. Sem dúvida, qualquer número de convenções de sinalizadores poderia ter sido adotado. Poderia se criar uma meta-acústica baseada em uma simultaneidade verificada pela transmissão de sons. Mas, a física não ganharia nada a partir dessa especialização. Então, a física é cósmica. Os mais rápidos e confiáveis sinais, os quais são ambos humanos e universais, são sinais de luz. O experimento de Michelson revela um caráter privilegiado que resulta desses sinais. Eles não requerem suporte; eles não são condicionados por um médium, por uma transmissão no éter. Eles são independentes dos movimentos relativos dos observadores que os utilizam. Eles são verdadeiramente os mais razoáveis de todos os sinais. Portanto, se deveria definir a simultaneidade de dois eventos que ocorrem em dois diferentes lugares em termos de uma troca de sinais de luz e do resultado, e daí em diante, considerado como positivo, do experimento de Michelson que justifica o seguinte postulado: a velocidade da luz é a mesma em todas as direções independentemente dos observadores que a mede, desconsiderando o movimento reativo desses observadores. Essa definição operacional da simultaneidade dissolve a noção de tempo absoluto. Visto que a simultaneidade é relacionada com os experimentos físicos que ocorrem no espaço, o contexto temporal é um com o espacial. Visto também que se não há espaço absoluto, não há tempo absoluto. Devido à solidariedade dos experimentos do espaço e à simultaneidade dos experimentos, uma reconstituição do espaço e do tempo deve acompanhar qualquer examinação profunda sobre o espaço e o tempo. Portanto, a partir do ponto de vista da filosofia, é evidente que o pensamento científico exige uma reconstrução das noções de espaço e tempo nos termos da sua solidariedade. Como consequência dessa necessidade para prover uma nova base para o espaço e tempo, a relatividade emergirá filosoficamente como um racionalismo de segunda ordem, como um racionalismo iluminado e que necessita de um novo ponto de partida. Mas, antes de se construir, deve-se destruir. Deve-se convencer a si mesmo que qualquer análise a partir da separação do caráter espacial e do caráter temporal é uma análise grosseira. Sem dúvida, semelhante análise é válida para um conhecimento comum, e não menos válida para uma enorme quantidade de pensamento científico. Mas, para sua denunciação, precisa-se apenas notar que ela disfarça certos problemas bem definidos. Procurando uma nova noção sintética do espaço-tempo, daí em diante indispensável para um vislumbre do fenômeno eletromagnético, pode-se perceber a fraqueza filosófica de qualquer tentativa à vulgarização. Não é uma questão de basear a síntese sobre uma análise. Deve-se conceber uma síntese a priori que subjaz a noção de espaço-tempo. Todos os relatos dos passageiros de trens, os quais sinalizam um observador em pé em uma estação, de aviadores que fumam cigarros em períodos de tempo alongado ou comprimido – to what purpose are they? – ou, mais precisamente, for whom are they designed? Seguramente, não para aqueles que não têm entendido a organização matemática da relatividade. E aqueles que têm entendido a organização matemática da relatividade não requerem exemplos. Eles se instalam no mais claro e certo algebraism of the doutrine. É sobre a base da síntese do experimento algébrico e científico que se pode corretamente designar o ressurgimento racionalista implicado na doutrina de Einstein. Permita-nos demonstrar este aspecto neo-kantiano. Ele não escapou. Léon Brunschvicg escreveu: "O desenvolvimento sobre Kant (afetado por essas novas doutrinas) consistiu em transportar a síntese do a priori da região da intuição para a região do intelecto, e isso é decisivo para a passagem à física". E, de fato, qualquer filosofia kantiana sustenta que o espaço não é um conceito traçado a partir da experiência do mundo externo, desde que a intuição do espaço é uma condição sine qua non da experiência do mundo externo. Uma similaridade de formulações invertidas está enunciada a respeito do tempo, o qual é dado como a forma a priori da sensibilidade interna. O sine qua non é o pivô da revolução copernicana das intuições do espaço e do tempo. E, da mesma maneira, na mesma moda filosófica, caso se determine a função epistemológica da noção espaço-tempo na ciência relativística, deve-se dizer que o complexo algébrico espaço-tempo é uma condição sine qua non da validade geral do nosso conhecimento de eletromagnetismo. O conhecimento do fenômeno eletromagnético durante o século dezenove foi coordenado pelas leis de Maxwell. A reflexão sobre essas leis conduziu à convicção de que elas devem permanecer invariantes para qualquer mudança de referência no sistema. Essa invariância definiu a transformação [fórmulas] de Lorentz. Elas estabeleceram o grupo de Lorentz que possui a mesma significância filosófica para a geometria da relatividade que os grupos deslocados possuíam pela geometria euclidiana. Portanto, a transformação de Lorentz perpassa a noção de espaço-tempo, e o grupo Lorentz proíbe a separação das coordenadas espaciais e das coordenadas temporais. A noção de espaço-tempo toma forma em uma perspectiva de necessidade. Vê-la em uma mera estrutura linguística, uma mera condensação de meios de expressão, seria subestimar sua significância filosófica. É uma concepção, uma concepção necessária. Se o papel do filósofo é, como acreditamos, to think thought, então se deve pensar o espaço-tempo na totalidade das suas funções, em sua natureza algébrica, e em seu valor informativo para o fenômeno científico. Caso se adicione agora, que devido à definição operacional de simultaneidade a velocidade da luz entra na referência mecânico-geométrica, e se recall que a luz é um fenômeno eletromagnético, alcança-se a conclusão de que a noção de espaço-tempo de agora em diante é uma noção básica para um entendimento ultra-preciso do fenômeno. Portanto, o conceito de espaço-tempo, como sugerido por Lorentz, como atingido por Einstein, aparece como uma forma a priori, funcionalmente um a priori, permitindo a compreensão precisa do fenômeno eletromagnético. É de pouca importância, filosoficamente, que esta forma ocorra tardiamente na história da ciência. Ela é instalada como funcionalmente primária pelo racionalismo iluminado, o qual constitui um dos aspectos mais bem definidos da teoria da relatividade. Deve-se aliar com o racionalismo iluminado que vê que há um novo racionalismo, assim como um novo realismo. E se ceifar todos os benefícios filosóficos da cultura científica, deve-se realizar psicologicamente as condições seguras das novas fundações; deve-se abandonar os antigos pontos de partida, e começar de novo. Próximo ao séc. XVIII, na história da astronomia, Bailly sustentou que a astronomia calculada assegurou um pedaço da mente em contraste a qualquer teoria da astronomia imaginativa. Pensadores newtonianos, ele disse, "escolhem adotar a noção de atração para fixar a imaginação, para repousar seus pensamentos. A função do racionalismo einsteiniano é da mesma forma salutar. A noção algébrica do espaço-tempo livra-nos de vulgarizar imagens. Ela nos liberta de uma veneração falsamente profunda. Em particular, ela exclui o irracionalismo associado com uma duração indeterminada. A mente repousa na verdade das suas construções. Uma vez que a natureza algébrica da formulação einsteiniana está realizada, ela se prepara para uma inversão filosófica das características abstratas e concretas da cultura científica; ou, para falar mais precisamente, ascender a uma característica abstrato-concreta do pensamento científico. Pode-se dizer que o conceito de espaço-tempo é mais concreto, apesar da sua característica intelectual, do que as duas noções separadas de espaço e tempo, visto que ela consolida duas perspectivas da experiência. Naturalmente, a noção de espaço-tempo, sempre que necessário, será dividida e analisada para integrar aquelas funções separadas do tempo e do espaço, na visão de simplificações, as quais são úteis na mecânica clássica. Mas, a relatividade estará alerta contra todas simplificações. Ela repousa no cume da sua síntese. Desse ponto, ela julga confiantemente toda perspectiva analítica. Como os filósofos serão conduzidos a esse cume [no domínio do tempo da física]? Mas, os filósofos não mais se preocupam com o pensamento sintético. Eles não desejam fundar conhecimento sobre sua mais alta realização. Eles afirmam cortar o Gordian knots num tempo quando a ciência se esforça para tecer junto as mais imprevistas relações, num tempo quando a ciência físico-matematática resolutamente se afirma abstrato-concreta. Em vez de um retorno incessante às bases do conhecimento comum, como se o que sustenta a vida pudesse ser posto sob o conhecimento, nós temos os meios, pela continuação da ciência einsteiniana, para desenvolver um racionalismo final, um racionalismo diferenciado, um racionalismo dialético. Essa diferenciação, essa dialética aparece no conhecimento em um segundo estágio de aproximação. Em resumo, aí ocorre uma inversão na ordem de importância epistemológica. A primeira aproximação é somente um movimento de abertura (opening move). O conhecimento comum o considera como básico, embora seja apenas provisório. A estrutura do entendimento científico emerge do refinamento por meio de uma análise tão profunda quanto possível de toda funcionalidade. Poderia-se, em função disso, limitar essas funcionalidades, caso se reconhecesse que a potencialidade permanece não realizada, que a sensibilidade é abafada. Poderia-se reconhecer que na mecânica quântica em numerosos casos ocorre degeneração, isto é, extinção de uma possibilidade estrutural. Mas, essas novas teorias produzem uma hierarquia geral dos valores racionalistas e empiristas. Ciência clássica e conhecimento comum têm seus [respectivos] lugares no sistema dos valores epistemológicos. A dialética da mecânica relativística e da mecânica clássica é uma dialética envolvente. Parece que a relatividade arriscou tudo com a certeza emprestada da concepção clássica da realidade, mas, tendo arriscado tudo, perdeu tudo. Ela tem conservado tudo que foi cientificamente conhecido durante o último século. Uma mudança das mais finas estruturas revela as correntes antigas. Portanto, relatividade permite uma retrospectiva representação da inteira história do racionalismo mecanicista.

V

Essa possibilidade de recorrer às filosofias simplificada será melhor entendida se nós mostrarmos a natureza notavelmente firme da associação do racionalismo e realismo, efetuada pela relatividade. Para isso, será suficiente considerar a forma algébrica, espaço-tempo, em suas funções organizadas na mecânica e no eletromagnetismo. Espaço-tempo não é meramente uma simples necessidade epistemológica evocada pela reflexão sobre as condições de invariância estipuladas pelas equações de Maxwell. Essa síntese inicial propaga seu poder de organização. A noção das condições quadrivetoriais do espaço-tempo acentua o caráter sintético do modo de organização relativística. Por exemplo, estendendo a concepção clássica da impulsão mecânica, que é o vetor da dimensão tridimensional do espaço, a relatividade alcança a concepção da impulsão do universo como um quadrivetor da quarta dimensão do espaço. Esta impulsão tem os três componentes do momento clássico como seu componente espacial, e a energia é dividida pela velocidade da luz como seu componente temporal. Mas, o quadrivetor da impulsão não consiste de uma justaposição do momentum – e energy-aspects. Tão poderosa, uma fusão conceitual é obtida que o princípio de conservação do momentum e o princípio de conservação da energia são somados. Em um sistema material isolado, a soma geométrica dos quatro vetores da impulsão permanece constante quando aplicada aos diferentes corpos no sistema. Relembrando que Descartes formulou sua mecânica nos termos da noção de momentum enquanto Leibniz avançou a noção de energia mecânica, poderia se perceber a partir da soma da sua síntese, a recorrência histórica como uma síntese profunda de Descartes e Leibniz atingida por Einstein. Essa mesma inspiração conduziu a descoberta de Einstein da homogeneidade algébrica da energia e massa. A essa descoberta da matemática, a origem racionalista teve considerável importância realista. O amalgama massa-energia, primeiro estabelecida pela energia cinética, claramente estende para todas as formas de energia. Sem dúvida, o filósofo que pensa em palavras, que acredita que os conceitos científicos têm uma raiz absoluta na noção comum, é "chocado" pela frase "inércia de energia". E ainda é este conceito de inércia de energia que marca a ciência einsteiniana como uma nova ciência, como uma ciência conceitualmente sintética. Com efeito, o aspecto realista desse amalgama massa-energia consiste em nada mais do que na união de princípios clássicos tão diferentes de conservação da massa e a conservação de energia. Considerada em sua evolução histórica, os conceitos de massa e energia aparecem antes de um absoluto. Agora, é necessário estabelecer entre eles uma profunda relação, uma relação ontológica. Em outras palavras, para realizar essa relativização de um princípio tão realista como aquele da conservação da massa, deve-se aceitar uma vez mais a revolução copernicana da relatividade, deve-se instalar a matemática no centro da experiência, deve-se tomar a matemática como a inspiração do experimento científico. Acima de tudo, experimentos tão precisos como aqueles da química aparecem no princípio de Lavoisier. A este respeito, a química foi o recital de um imenso sucesso. A química codificou o caráter absoluto de um materialismo de equilíbrios. O realismo científico esteve, neste ponto, sobre um par de convicções do naïve realism. Permita-nos sublinhar firmemente que a eficácia do pensamento prossegue na direção do racionalismo para o realismo. Primeiramente, pertence não ao princípio de conservação (na moda realista), mas ao princípio da invariância (moda racionalista). São as condições invariantes da expressão matemática das leis que permitem uma definição do significado e validade dos verdadeiros princípios de conservação. Na medida em que foi pensado ser possível caracterizar a filosofia da relatividade pelo selo ultra-simples do realismo a partir do único fato de que a relatividade substancia os princípios da conservação, essa evolução epistemológica deve ser a mais definitivamente formulada. Para outra parte, somos da opinião de que a maneira de conservar é mais importante do que o que é conservado. Conservar massa e energia em uma simples fórmula não é realmente a base de uma realidade conservada, mas, em vez, se torna consciente do poder racionalista da invariância das leis. Sem dúvida, o experimento em sua forma mais refinada e meticulosa sancionou a visão ingênua de Albert Einstein; consequentemente, o conceito de inércia de energia possui uma característica realista inegável. Mas, essas concepções foram originais e inspiradas; elas não foram psicologicamente naturais conduzindo aos experimentos científicos que teriam sido quasi-super-natural. Por exemplo, a totalidade da física nuclear falha na jurisdição do princípio de inércia de energia. E o poder da física nuclear tem sido suficientemente enfatizado, talvez para negligenciar seu caráter ultra-fenomenal. O cientista tem despedaçado (smashed) mais núcleos de urânio no espaço de cinco anos do que a Natureza em um milênio. O laboratório técnico tem triunfado na implementação por meio da pilha atômica do princípio einsteiniano da inércia de energia. A realidade inativa (slumbered) em seus materiais foi provocada pelos experimentos matemáticos fundados. Vendo a partir do nível nuclear, se poderia bem dizer que a matéria evoca um neo-materialismo, no qual substância e energia são entidades intercambiáveis. Realidade não é mais natureza pura e simples. Ela deve ser trabalhada para se tornar o objeto do experimento científico. Portanto, a filosofia da ciência contemporânea, colocada a partir das revoluções do começo do século, aparece como uma dialética do racionalismo iluminado e do realismo elaborado. Para não perder nenhuma das implicações filosóficas da ciência, os dois conceitos, de invariância e conservação, devem ser sintetizados em uma filosofia abstrato-concreta pela introdução de uma unificação adicional tratada na forma invariância-conservação. Aqui está uma filosofia doublet, a qual seria mutilada por uma interpretação filosófica unilateral, se racionalista ou realista. Ciência requer, daí em diante, uma dupla certeza. Deve satisfazer as exigências da coerência matemática e a minuciosa verificação experimental.

VI

Temos seguido rapidamente um desenvolvimento do pensamento relativístico a um centro sintético da ciência da mecânica. A síntese ao lado do eletromagnetismo não foi menos importante. Os componentes dos dois vetores tridimensionais pela física clássica definidos separadamente, o campo elétrico e o campo eletromagnético, estão reconhecidos pela relatividade como os componentes de um único tensor. Este fato adota as equações de Maxwell-Lorentz com uma generalidade extrema que vai de mãos dadas com uma extrema condensação algébrica. Não é menor o caráter paradoxal da relatividade geral para encontrar no desenvolvimento da sua doutrina essa dialética de condensação racional e a extensão de significações empíricas. Quando o racionalismo iluminado apreende a realidade por símbolos condensados, experiencia também a great peace of mind. Sobre o cálculo tensional, Paul Langevin gostava de dizer, conheça relatividade melhor do que a relatividade de si mesmo. O cálculo tensional se torna, de alguma maneira, assumido por nós com pensamento subalterno; é nossa garantia de nada esquecer; ele providencia uma particular análise. Esses símbolos não são de forma alguma místicos. Eles são transluzentes à matemática e resultam da perspicácia do físico. As fórmulas unificadas da relatividade geral são a síntese filosófica que reúne racionalismo e realismo.

VII

Se considerássemos dialeticamente o princípio de equivalência de inércia da massa e do peso da massa, o princípio que fundou a relatividade geral, seríamos conduzidos às mesmas conclusões filosóficas. Com efeito, reunir a inércia da massa e o peso da massa em um conceito simples requer chegar ao amalgama da inércia, qualidade inerente a um dado corpo, e peso, qualidade que é, de alguma maneira, externa ao corpo em questão. Portanto, temos um exemplo da correlação de uma força e uma estrutura do espaço-tempo. Esta correlação inscrita no princípio einsteiniano de equivalência é estendida no desenvolvimento da doutrina. Aqui, de novo, o filósofo pode encontrar instrução; para o princípio de equivalência constituir uma recusa da prioridade lógica habitualmente designou para a força contra suas manifestações. De fato, força é contemporâneo ao phenomena. Não há circuito do ser que o designe pela matéria, pela sua força, e pela deformação da matéria. Como disse Eddington: "Matéria não é a causa, ela é um indicador (idex)". Tudo existe junto como a estrutura do espaço-tempo. Relatividade, portanto, parece modificar filosoficamente os princípios do "causalismo" na profundidade do realismo. A filosofia abstrato-concreta terá que ser formulada nos termos de um novo traço de união metafísica e terá que pensar o fenômeno científico como cause-functios. Lá ocorre uma endo-osmosi das consequências matemáticas e causas físicas. Portanto, relatividade incessantemente chama o pensamento científico a uma atividade filosófica que é central e dialética. O problema tradicional do dualismo mente e corpo é colocado em um lócus preciso e central, com o subsídio de uma sensibilidade extrema. Aqui a matemática mais rigorosa e a física mais meticulosa concordam. Elas se entendem. Elas se instruem. Pensamento se tornaria vazio, experiência se tornaria obscura, caso não se aceitasse nas regiões onde a relatividade funciona a síntese do racionalismo iluminado e realismo elaborado.

Gaston Bachelard The Sorbonne Paris, France